JOANA DE GOTA D’ÁGUA [A SECO]


Estou abordando peças antes encenadas nos palcos, comentadas no blog e reapresentadas agora na modalidade ON-LIVE, resumindo o teatro que se faz neste momento: ao vivo e on-line.


Desta vez é “Gota d’água [a seco]”, que já comentamos aqui, transformada em monólogo de Joana/Medeia.


JOANA DE GOTA D’ÁGUA [A SECO]

Tema: Medeia

Texto: Gota d’água, de Paulo Pontes e Chico Buarque (1975)

Adaptação de texto: Rafael Gomes, Laila Garin e Cie Dos à Deux 

Direção: André Curti e Artur Luanda Ribeiro (Cie Dos à Deux)

Interpretação: Laila Garin

Cenografia: Cie Dos à Deux

Iluminação: Artur Luanda Ribeiro e Hugo Mercier

Diretor de fotografia: Miguel Vassy

Trilha Sonora: Marcello H

Adaptação dos arranjos musicais: Antonia Adnet (violão) e Pedro Silveira (guitarra)

Duração: 35 min.

Assistido em: 11.09.20

Site: youtube.com/sescsp (disponível temporariamente)


Divulgação: A partir dos versos e rimas do clássico “Gota d’água”, a Cie Dos à Deux traduz a dramaturgia gestual de Joana, uma mulher que se recusa a aceitar sua condição imposta. Abandonada com os filhos por Jasão e expulsa de casa por se recusar a ser explorada, Joana, a Medeia carioca, grita com a voz e gesto que lhe restam. A adaptação da peça para o Teatro #EmCasaComSesc desenvolve ainda mais a concentração dramatúrgica iniciada no espetáculo presencial “Gota d’água [a seco]”, de Rafael Gomes com realização da Sarau Agência de Cultura. Ali, toda a trama, amorosa e política, é contada apenas pelo casal protagonista. Desta vez, o enredo é visto por meio de uma só personagem: Joana, interpretada por Laila Garin.


COMENTÁRIO

A ausência do personagem Jasão coloca esta versão extremamente condensada de “Gota d’água” ao lado dos demais, digamos, monólogos amargos de Medeia que estiveram nos palcos nos últimos anos e ON-LIVE nos últimos meses: “Mata teu pai” (3.jul), “Medea Mina Jeje” (3.ago), “Medeia Negra” (2.set). No palco, a presença do antagonista de Joana (como é chamada a Medeia de Paulo Pontes e Chico Buarque) acaba dispersando um tanto da atenção do discurso aterrador da protagonista, ainda mais quando se considera a coreografia entre atores numa cena criada pelo diretor Rafael Gomes, com a canção Caçada, de Chico. Veja aqui.


Na versão solo, o discurso de Joana se depura tanto, conformando um espetáculo de apenas 35 minutos incluindo canto, que se aproxima estruturalmente dos monólogos, mas não dá pra dizer que aconteça também uma afinidade temática, pois esta Medeia da década de 1970 não levanta a bandeira da mulher refugiada ou diaspórica como fazem as outras peças, todas da segunda década do século XXI, em sintonia com seu tempo. Esse Jasão ausente (desempenhado por Alejandro Claveaux no palco) é o disparador de todo o horror a ponto de ter uma de suas falas incorporadas por Joana como agressão a si mesma. A diferença etária continua a ser um tema nessa adaptação, movendo a vingança por ter sido trocada por Alma Vasconcelos, mais nova e rica. 



Isso não quer dizer que a insubmissão de Joana passe batida, mas não foi ainda desta vez que se aproveitou a personagem para erguer outras bandeiras. Nesse sentido, partir do texto de Eurípides parece estimular muito mais tal ousadia. A versão solo ON-LIVE começa com uma fala arrebatadora, adaptada do segundo ato e seguida de um trecho muito breve da canção Gota d’água.


Quem alguma vez já sentiu

a clara impressão de que alguém lhe abriu

a carne e puxou os nervos pra fora

de uma tal maneira que, muito embora

a cabeça inda fique atrás do rosto,

quem pensa por você é o nervo exposto?


Na sequência, voltando ao primeiro ato e quase que à primeira fala de Joana na peça:


                        Eu não sou mulher

pra macho chegar e usar como quer,

depois dizer tchau, deixando poeira

e meleira na cama desmanchada

Mulher de malandro? Comigo, não

Não sou das que gozam co’a submissão.

Eu sou de arrancar a força guardada

cá dentro, toda a força do meu peito,

pra fazer forte o homem que me ama.

Assim, quando ele me levar pra cama,

eu sei que quem me leva é um homem feito.


Então, sobre o texto, onde quero chegar é que, embora precioso estilisticamente, numa adaptação consistente para o monólogo, Joana parece aquém do que pode a Medeia hoje. E talvez seja necessário lembrar que essa é uma Medeia que mata os filhos e a si, falhando em seu propósito de exterminar os Vasconcelos, pai e filha. Com o apagamento quase total do embate social que a peça dos anos 1970 traz, falta algo para os dias atuais.



Outra questão é a música. “Gota d’água” é um musical, com quatro das mais conhecidas canções de Chico Buarque: Gota d’água, Basta um dia, Bem querer, Flor da idade. No palco, desde sua estreia no Rio de Janeiro, em maio de 2016, “Gota d’água [a seco]” incorporou mais canções de Chico. Agora, o repertório encolheu: trechos de Gota d’água, de Eu te amo, de Pedaço de mim e o encerramento com Cálice. É natural. Mas é menos.


Contudo, com menos deu pra fazer muito. Sob a direção da Cie. Dos à Deux, a atriz Laila Garin recriou, no espaço da companhia teatral de André Curti e Artur Luanda Ribeiro, no bairro da Glória, no Rio de Janeiro, movimentação que lembra a do palco no provocador cenário de André Cortez. Remeto mais uma vez ao link com extratos da peça, acima.




O que se vê é o aproveitamento sempre surpreendente do espaço (que eu lamento não conhecer), com subidas e descidas de escadas fixas ou móveis como se no movimento de percorrer vielas numa comunidade de morro. Houve uma engenharia de luz que também construiu o ambiente de desolação associada ao terror iminente, com grandes sombras projetadas nas paredes (às vezes, até a do cinegrafista).




A dimensão que a filmagem ganhou nas telas do computador e da televisão me fez pensar num espaço aberto, ao ar livre, impressão desfeita apenas depois de ter encontrado a foto abaixo do espaço da Cie. Dos à Deux em condições normais de iluminação.



É inevitável considerar a versão ON-LIVE de “Gota d’água [a seco]” como uma produção audiovisual que explora criativamente os recursos limitados. A câmera é senhora nessa produção. A atriz está ciente dela e com ela colabora todo o tempo. Na água do tacho é filmado o reflexo de Joana. 





A direção de fotografia foi eficaz, editando ao vivo closes do rosto, dos pés, das mãos de Laila Garin, que acrescentaram dramaticidade à interpretação. Como já afirmei em outras ocasiões, isso difere do teatro pela razão de direcionar e restringir nosso olhar. A visão totalizante do palco se perde. A gente se torna telespectador, não mais espectador. Nesse sentido, o fato de ser ao vivo não basta para caracterizar como espetáculo teatral. 


Nada contra. Só que uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa. Ou melhor, são muitas outras coisas. Ainda vou falar sobre elas.

(Renata Cazarini)




 

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