MEDEAMATERIAL


Mito: Medeia
Texto: Heiner Müller
Tradução: Christine Roehrig e Marcos Renaux
Direção: Márcio Aurélio
Elenco: Aury Porto
Idealização: mundana cia.
Temporada: 10.01.19 a 26.01.19
Local: Sesc Pinheiros – São Paulo (SP)
Duração: 60 min.
Assistido em: 10.01.19

A partir da transgressão estética do dramaturgo alemão Heiner Müller e da investigação sobre o artista brincante, “Medeamaterial” usa como base para a interpretação do mito de Medeia e sua relação com Jasão os princípios criativos e o modus operandi que dão suporte à arte dos brincantes. (divulgação)

Comentário

O texto do dramaturgo alemão Heiner Müller, de 1982, mais conhecido como “Medeamaterial” é, na verdade, composto de três cenas, que poderiam até ser encenadas simultaneamente, segundo o próprio autor (leia mais abaixo). O título completo da peça, em português, é “Margem abandonada – Medeamaterial – Paisagem com argonautas”. Na montagem da Mundana Cia., que estreou dia 10 de janeiro no Sesc Pinheiros, em São Paulo, cada cena (ou ato, se preferir) recebeu um número (1, 2, 3), na ordem em que aparece no texto traduzido por Christine Roehrig e Marcos Renaux, editado em 1993 pela Paz e Terra. Com isto, quero apenas observar que qualquer estranhamento que o texto possa causar ao espectador nada tem a ver com uma “inapropriação” da peça dramatúrgica alemã. A “Medeia” de Heiner Müller é sua pura expressão: cenas justapostas, parataxe verbal.

A trama mitológica da mulher bárbara que mata os filhos para se libertar da civilidade helênica está ali, no trecho que tornou essa obra do alemão tão famosa: “Medeamaterial”. Esse é o clímax da montagem da Mundana Cia. Ali o ator Aury Porto encarna a Medeia de Müller, que carrega os traços do mito antigo: libertária e impiedosa. “A perita dos venenos”, segundo o dramaturgo alemão, que tem um bordão: “Tu me deves um irmão, Jasão”. O longo monólogo de Medeia está atavicamente ligado ao vestido de noiva que é figurino e cenário. O movimento de palco (bom, não um palco convencional) é uma coreografia com os elementos cênicos.


Trecho da fala de Medeia (Müller não usa pontuação):


Quero fazer a noiva em tocha nupcial
Vede vossa mãe vos propicia agora um espetáculo
Quereis vê-la arder a nova noiva
O vestido de noiva da bárbara é próprio para
Com pele estranha unir-se mortalmente
Feridas e cicatrizes dão bom veneno

Essa relação singular PALAVRA&IMAGEM é o vetor do projeto “Mundana +”, abrigado no Sesc Pinheiros desde dezembro, quando foi encenada “Máquinas do mundo”. Do programa do projeto:

“Estas performances estão conectadas pela forma de se conceber o espaço e pela interação que estes espaços plástico-cênicos devem ter com o público, através de suas formas, cores, volumes, sons e luzes”.



A realização das cenas 1 e 3 é, ouso dizer, menos feliz. “Margem abandonada” é a descrição de uma paisagem apocalíptica, um locus horrendus em direta oposição ao tópos do locus amoenus da literatura clássica. Uma voz em off fica aquém das possibilidades desse texto. “Paisagem com argonautas” é, possivelmente, a maior oportunidade de expressão dada ao personagem Jasão na dramaturgia contemporânea: um monólogo cheio de referências e alusões à opressão do mundo atual. A solução cênica do diretor Márcio Aurélio é interessante, mas ainda não desata o nó do texto pedregoso de Müller. Mas aí é que está a graça, ou seja, continuar tentando.

Sobre a dramaturgia de Müller no Brasil, veja um post anterior.

Sobre sua peça o dramaturgo alemão, que era diretor também, escreveu:

“O texto requer o naturalismo da cena. MARGEM ABANDONADA pode ser apresentada durante o funcionamento de um peep show, MEDEAMATERIAL em um lago em Straussberg, que pode ser uma piscina barrenta em Beverly Hills ou as instalações de banho de uma clínica de repouso. Como MAUSER [outra peça do autor] pressupõe uma sociedade que rompe limites, em que um condenado à morte pode transformar sua verdadeira morte em uma experiência coletiva no palco, PAISAGEM COM ARGONAUTAS pressupõe as catástrofes nas quais a humanidade trabalha. A paisagem pode ser uma estrela morta, onde uma missão de resgate de um outro tempo ou de um outro espaço ouve uma voz e encontra um morto. Como em qualquer paisagem, o Eu neste trecho do texto é coletivo. A simultaneidade dos três textos pode ser encenada livremente”.


                                 Agradecimentos da Mundana Cia. ao público.

Na estreia, houve longos aplausos aos atores, diretor, equipe e até aos tradutores, algo incomum. Eu já tenho ingresso para o dia 24, quando haverá conversa com o elenco após o espetáculo. Com certeza, ver essa montagem pela segunda vez será um prazer.
Aqui um atalho, se interessar.

Da esquerda para a direita: tradutor Marcos Renaux, ator Aury Porto,
diretor Márcio Aurélio, tradutora Christine Roehrig.

(Renata cazarini)