ANTIGONICK: ANNE CARSON NA POESIA DE JULIA RAIZ

 

A canadense Anne Carson traduziu Antígona, de Sófocles, duas vezes. Na primeira, introduz um personagem inédito, Nick, persona muta que faz mensurações durante toda a representação, incluindo também menções a figuras reais, como Beckett e Hegel, além de inserir termos anacrônicos, tipo lancha e tomada. A segunda foi uma encomenda do encenador Ivo van Hove, que estreou em 2015 com a atriz Juliette Binoche no papel principal.

Agora a Bazar do Tempo publica a tradução de Julia Raiz da Antigonick. Então, só pra ficar claro, ainda que apresentada como tradução da peça grega de Sófocles feita por Carson (veja a capa), o que a gente vê-lê-ouve é isso e é outro. É poesia dramática traduzida, com os conhecidos personagens em diálogo e as intervenções do coro, nos moldes da tragédia ática. E é a dramaturgia de Carson, não só um experimento textual, mas ação teatral.

Anne Carson

Na edição brasileira, a peça vem acompanhada da carta de Carson dirigida à figura mitológica: “a tarefa da tradutora de Antígona”. Nesse breve texto, a autora refere-se à recepção da peça sofocliana, incluindo Brecht, Anouilh. Diz Carson: “querida Antígona, eu tomo como a tarefa da tradutora impedir que você um dia perca seus gritos”. Não muito diferente é o que faz Raiz (pronuncia-se Ráis) numa poética nota da tradutora:

Imagino Anne no meu colo, ela não é bebê, é a mulher adulta de agora

Apoia sua bunda ossuda nos meus joelhos

Dou comida na sua boca com uma colher

A comida é mingau de papel

Palavras que eu escrevi, picotei e molhei com leite até virar uma papa

Alimento ela com a minha tradução


Tarefas impossíveis (Julia Raiz)
Comentário sobre traduzir Anne Carson traduzindo Sófocles

Raiz defendeu uma tese sobre a tradução da produção ensaística de Carson em 2022 na UFPR. Ela também traduziu para a Bazar do Tempo os livros de Carson Eros, o doce-amargo (2022) e A beleza do maridoUm ensaio ficcional em 29 tangos (2024), este, em coautoria com Emanuela Siqueira. Só posso agradecer o afeto manifestado por Raiz ao responder à entrevista que elaborei após a leitura da sua tradução de Antigonick. O site da poeta. Já escrevi antes sobre sua poesia das Metamorfoses do Sr. Ovídio

Julia Raiz

10 PERGUNTAS PARA JULIA RAIZ, TRADUTORA DE ANTIGONICK.

1.    Como tradutora você é sempre poeta? A beleza é algo para se estar muito atenta durante a tradução, fazer beleza e fazer bonito rs. Tentar oferecer respostas criativas aos problemas. Como poeta e tradutora, tem que gostar de problema. Traduzir exige a minha caixa inteira de ferramentas, exige sensibilidade, pesquisa, audácia, dependendo do projeto pode até exigir memórias especificas, por exemplo, que eu me lembre como era quando a minha filha ainda não falava e queria mastigar as páginas do caderno. Traduzir me faz mais poeta, me empurra para juntar palavras (sons, imagens, abstrações) que eu não juntaria se estivesse escrevendo um poema (só) meu.

2.   Qual o lugar do silêncio na sua tradução além das omissões pontuais de Tirésias? Ótima pergunta. Na última oficina de escrita que ofereci, chamada Escrita, edição, voz / Nascer, morrer, renascer faço essa pergunta para a turma antes de “legendarmos” o poema para a leitura em voz alta: cadê o silêncio? Essa pergunta serve para gente se relacionar com o ritmo do texto quando ele é materializado em ondas sonoras. O silêncio vai dar contorno para a cadência e para o gingado, aliás, nossa tendência, em público, é ler rápido demais para se livrar logo do poema. Como se ele fosse uma batata quente ou algo barulhento demais. Então, pensando agora, talvez o silêncio na minha tradução esteja em tudo, na cadência e na tentativa de não me livrar rápido do texto que estou traduzindo. Ficar em silêncio com o desconforto de não saber como fazer, antes de estar “bem na hora”, no momento da escolha. Em silêncio ao entrar em contato/crise com os próprios limites. Parafraseando Carson, a benevolência da tradução é que ela nos oferece um terceiro lugar para se estar, um lugar em que é possível escapar da exatidão. Você se estica, tenta alcançar, ainda assim o espaço permanece, esse é um dos movimentos feitos pelas pessoas que amam em Eros, o doce amargo. Simone Weil, de quem Anne Carson é leitora, diz sobre abrir espaços de vazio para deixar passar a graça. Alguns silêncios são terríveis, claro, a palavra quiet aparece quatro vezes com o advérbio terribly em Antigonick. Mas Carson nos lembra que nem Joana d’Arc nem Marguerite Porete teriam sido queimadas vivas pela Inquisição se pudessem ter direito ao silêncio. Talvez seja o outro lado da tarefa da tradutora, além de garantir os gritos, garantir também os silêncios.

3.   As expressões idiomáticas têm que ser literais? Acho que em tradução nada tem que ser. E, geralmente, a gente escolhe estratégias diferentes (para traduzir expressões idiomáticas, por exemplo) dentro de um mesmo texto. A literalidade às vezes é uma escolha poética, a poeta aciona na própria mente o sentido literal e metafórico ao mesmo tempo. Observo as crianças fazerem isso. No caso de “pregou todas as línguas no chão”, a palavra chão, na voz de uma mulher que corre o risco de ser enterrada viva, está dentro de um campo simbólico maior. Para Tirésias, o erro estrutural de Creonte é colocar os vivos debaixo da terra e manter os mortos aqui em cima. É uma questão de espaço, espacialidade e limite. Em outro momento do texto, a expressão “procurar pelo em ovo” tradução para “split hairs a while longer” mantém com “pelo” algo de “hair”, mas não é literal.

4.   Vê “erros criativos” à moda da “palavra vermelha” de Hölderlin? Eu gosto muito dessa tradução, ou verso para um poema imaginativo como ela chama, da Marília Garcia. Pensei muito se deveria manter ou não. Acho “sangue nos olhos” (nos zoio), uma expressão flecha, certeira e bonita no voo. Ela conseguiu movimentar Carson e Hölderlin. Antigonick da Marília Garcia seria outra tradução, talvez mais errada (na perspectiva do ensaio “Sobre aquilo que eu mais penso” em que o erro aparece como novos caminhos da mente) porque ela é uma ótima poeta e tradutora. Mas, entendi que a escolha de Garcia não conversava com outras decisões que eu estava tomando. Vou tentar falar um pouco desse percurso. Enquanto me relacionava com Antigonick, procurei trabalhos sobre duas personagens em específico: o Guarda e o Mensageiro. Fiquei totalmente impactada com a triangulação que a tradução da Carson reforça entre: Guarda, Mensageiro e Tradutora, uma triangulação poderosa entre as personagens trabalhadoras da peça, que continuo processando. Talvez eu devesse procurar mais, mudar o método de pesquisa, mas a verdade é que encontrei pouca coisa escrita que me dissesse mais sobre essas duas personagens tão interessantes. Quero elaborar mais sobre isso em outras oportunidades. O Guarda é a pessoa que pega Antígona no flagra, tentando sepultar o irmão, é ele que descreve para Creonte e para nós a cena que viu. Mais do que viu, que sentiu como o corpo todo, porque o fedor do sol a pino misturado à putrefação foi cortado por uma tempestade furiosa que arrancou o cabelo das árvores e levantou poeira. Antígona, na perspectiva do Guarda, aparece como uma criança no seu lutopássaro no meio da tempestade. O Guarda inventa palavras para dizer da dor dela. Palavras que quebraram a minha cabeça para trazer para o português brasileiro. A criança-pássaro dentro da tempestade do luto, uma relação tão comovente com os céus. Pensei também na tempestade de Zeus, um aviso? O céu, as aves barbarizadas. Difícil traduzir os textos que nos chegam dos outros seres vivos a todo momento. Por causa do impacto da cena da tempestade, poetizada pelo Guarda, na minha tradução, quis manter na fala de Antígona o som e a fúria, juntar tempestade e trovão, por isso trovoada que guarda ainda similaridade sonora com revoada, coletivo de pássaros. No final das contas, estou em busca do que Carson diz sobre as traduções de Hölderlin de Sófocles, sobre Francis Bacon como pintor e sobre Joana d’Arc como soldado de Deus: um alto grau de autoconsciência presente em suas manipulações.

5.   Por que não traduzir “nick”? [Antigotriz (tr. Isabel Lopes); antigonice (tr. Matheus Pessoa)] Algo que orienta fortemente minha tradução de Antigonick – que se junta com a de Isabel Lopes e a de Matheus Pessoa, além das não publicadas que circulam pelas salas de aula, pelas amizades etc – é apresentar para o público brasileiro o fato de que se trata de uma tradução feita por Carson do texto de Sófocles. Temos aqui então três camadas: Sófocles, Anne Carson, minha tradução com a Bazar do Tempo. Isso, inclusive, foi tema de várias conversas com a equipe editorial, porque impacta diretamente na capa e em como o livro vai ser apresentado. Não é uma reescrita, não é uma adaptação de Sófocles, é uma tradução. E é assim que a tradução é apresentada na edição da New Directions, mas não só, em muitos momentos do texto, Carson está acotovelando os limites do que é chamado de tradução (na carta à Antígona, nos comentários sobre encenações da peça etc). Acredito demais na prática tradutória como um dínamo poderoso e constante no projeto de escrita-vida da autora. Ela, poeta porque tradutora, tradutora porque poeta. Por isso, não traduzir Nick, manter esse nome estrangeiro no texto – e em cena porque tentei que essa tradução seja possível para cena –, colocar a expressão in the nick of time em inglês e mostrar as possíveis traduções para o português dentro do texto, entre outras escolhas, é uma maneira de reforçar: vejam, vocês estão lendo uma tradução. E essa tradutora aqui comenta sobre traduzir enquanto traduz. Essa tradutora, Anne Carson, essa tradutora, eu. É uma escolha possível como é possível usar Antigotriz ou antigonice. Tudo depende de qual é o projeto de tradução em jogo no momento.

6.   “Com Nick, bem na hora” = “in the nick of time”. Por que a formulação de companhia? A expressão in the nick of time no texto em inglês é uma expressão idiomática que aponta para uma questão bastante fundamental no conflito da peça que é a questão do tempo. Creonte não age a tempo, se agisse não existiria tragédia. Além disso, é uma expressão que evoca Nick, o personagem mudo, esse he/ele (e nenhuma marcação de gênero pode ser vista como mero detalhe) que não sai de cena e está sempre medindo coisas. Na tradução, eu quis manter essa evocação, esse gesto de linguagem que aponta para uma pessoa que está em cena a todo momento. Em inglês é o que acontece, quando alguém repete a expressão, é bem possível que isso leve os olhos do público direto para Nick. A preposição com traduz essa junção: personagem + expressão.

7.   Mas “nick” é também “naco”. E “what is a nick” se torna “quem é Nick?”. Por que fazer esse jogo? Nick também é corte, entalhe, pedaço, pode ser um naco principalmente quando a tradutora precisa manter um jogo sonoro que está muito evidente no texto em inglês: now, nick, neck. Porque Nick pode ser muitas coisas e, principalmente, uma dupla substantivo comum/substantivo próprio: nick, Nick, decidi dobrar o verso: o que é um naco/quem é Nick. Mais um gesto de apontar para esse personagem mudo, medindo as coisas. Antigonick foi pensado para a cena, é bem importante que minha tradução considere isso. Fico imaginando se Carson pensou que, ao traduzir Sófocles, ela jogou uma expressão em inglês como uma pedra enorme no meio do texto desde o título, e o que isso faria com a cabeça das futuras tradutoras da sua tradução. Decidi fazer a tradução da tradução ser essa pedra pesada que estou jogando no meio do texto e da cena.

8.  Você: Eu nasci para o amor não para o ódio. Carson 1: I am born of love not hatred (Antigonick). Carson 2: I am someone born to share in love not hatred (Antigone). Por que não faz diferença? As coisas mínimas fazem diferença na tradução, na poesia, na vida. E às vezes não é a gente que percebe isso, mas as outras profissionais da equipe editorial, já que um livro se faz com editora, revisora, preparadora, diagramadora, capista. Carson tem um poema sobre as preposições que, na minha versão, começa assim “às vezes pela noite eu não sei por que/ acordo pensando em preposições./ Talvez elas sejam pistas”. Ao mesmo tempo, se apegar às coisas mínimas, querer levá-las todas no colo até o texto na língua de chegada é sofrimento na certa. Na minha versão de Antigonick em inglês temos: I am born for love not hatred. Por isso usei para.

9.   A linguagem das redes cabe bem na tradução de Carson? [ex.: cadelinha de mulher] É uma aposta para esse trecho em específico, acho que as leitoras podem dizer, mas nem o público leitor tem uma opinião homogênea né. Foi uma escolha para se aproximar do sentido de alguém subalternizado e manter a conotação sexual, como em woman’s toy. Acho que cabe na boca do Creonte de Carson esse reforço da feminização do subalterno na linguagem. Algo que acontece com frequência no português brasileiro. Mas é mais complexo do que isso, obediência, submissão, mas também admiração (de Hêmon em relação à Antígona) estão em jogo aqui. O que posso dizer é que a anacronia é um prato do qual a tradução da Carson se serve bastante e isso fica muito marcado nos versos que se seguem a woman’s toy. Fico pensando em Creonte, remando sua nova lancha e o que me vem à cabeça é uma música que estourou no Brasil: cabeça branca é um cidadão de bem/ um empresário que precisa relaxar / fim de semana, ele pega as novinhas / e patrocina um churrascão em alto-mar. Creonte não é só isso, obviamente, mas nesse momento do texto ele também é o cara da lancha, um homem de poder, furioso porque seu filho não enxerga a situação da mesma forma que ele. Outra música que me fez pensar sobre tradução essa semana foi Drão do Gil: “tem que morrer para germinar/ plantar nalgum lugar/ ressuscitar no chão”. As referências são várias e variadas isso que eu quero dizer. Algo tem que morrer para germinar em tradução.

10. Sua tradução, quando lida em voz alta, é “barulhenta” (loud) como Creonte vê Antígona? Sinceramente não sei te dizer, a tradução nem chegou nas pessoas ainda e não sou eu que posso responder isso, me parece. Dentro das minhas possibilidades, testei a tradução em voz alta junto da minha amiga, que também é poeta e atriz, Brenda Sodré. A vontade é que o texto coubesse na boca de uma atriz brasileira e ao mesmo tempo denunciasse a si mesmo como tradução. O que eu posso dizer é que o que eu faço com o texto da Carson não é o que a Carson faz com o texto de Sófocles. Ela foi muito mais inventiva e ousada no seu trabalho de tradução, que, a meu ver, está a serviço da radicalidade do texto antigo. Talvez eu seja muito mais cadelinha da Carson na minha tradução, muito mais colada às suas costas. Mas, a meu favor, tenho uma atenção apaixonada ao projeto dessa tradutora-poeta-professora, e é com isso em mente que eu busco autoconsciência e tento cavar vazios por onde a graça (benção, beleza, brincadeira) possa entrar. Espero que essa tradução de Antigonick gere conversas apaixonadas sobre tradução com as leitoras, estico o braço e tento alcançar esses momentos.

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