"Édipo" de Robert Icke

foto de Ronaldo Gutierrez

Édipo
A partir de Sófocles (Édipo Rei)
Texto: Robert Icke
Direção e tradução: Clara Carvalho
Elenco: Sergio Mastropasqua (Édipo), Clarisse Abujamra (Jocasta), Oswaldo Mendes (Tirésias), Chris Couto (Mérope), Rodrigo Scarpelli (Creonte), João Bourbonnais (Quirino), Thalles Cabral (Polinice), Thaina Muniz (Antígona), Marisa Mainarte (Lídia), Thomas Huszar (Etéocles) e Roberto Borenstein (Motorista)
Idealização e produção geral: Rosalie Rahal Haddad
Diretor assistente: Thiago Ledier
Cenografia e arquitetura cênica: Chris Aizner
Música original: Gregory Slivar
Cenotécnico: Alício Silva/Casa Malagueta
Produção de objetos: Jorge Luiz Alves e Luiza Meira Alves
Figurino: Marichilene Artisevskis
Costura: Judite Gerônimo de Lima
Assistente de figurino: Lilian Pessoa
Iluminação: Gabriele Souza
Filme inicial e registro em vídeo: Ícarus Filmes
Fotos: Ronaldo Gutierrez.
Realização: Círculo de Atores
Temporada: 15 de agosto a 6 de setembro 2026
Local: Auditório do Masp (344 lugares)
Classificação indicativa: 16 anos
Duração: 100 min
Visto no dia 2 de agosto 2026
Programa

Sinopse

Escrita pelo dramaturgo inglês Robert Icke em 2018, transforma a tragédia Édipo Rei, de Sófocles, escrita em 427 a.C., num thriller político contemporâneo ambientado no escritório de campanha de um candidato prestes a vencer uma eleição majoritária. Conservando as unidades clássicas de tempo, espaço e ação, a peça traz, além do suspense e de um painel intrincado de relações familiares, uma profunda sondagem existencial e um mergulho no inconsciente. Assistimos à crise vertiginosa de um político que, sem saber, transgrediu leis civilizatórias e que por excesso de autoconfiança e orgulho engendra a própria ruína. Uma das inovações do texto em relação ao original grego é trazer pela primeira vez o ponto de vista da personagem Jocasta, que faz o relato pungente de como foi abusada por um pedófilo, engravidou e deu à luz aos treze anos.

Robert Icke, de 40 anos, é um dramaturgo que trabalha sobretudo com adaptações de textos clássicos. Esta é a terceira montagem de um texto seu no Brasil. Foram montadas em São Paulo recentemente A Médica (adaptação de Professor Bernardi, de Arthur Schnitzler), também produzida por Rosalie Rahal Haddad em 2025, e Mary Stuart (adaptação da peça homônima de Schiller), em 2022. (Divulgação)

Sergio Mastropasqua como Édipo em primeiro plano - foto de Ronaldo Gutierrez

Comentário de Clara Crepaldi

No palco, Édipo e Jocasta finalmente entendem a natureza da sua relação, mas esse reconhecimento em nada diminui o tesão que mãe e filho sentem um pelo outro e que a peça, aliás, não hesita em pôr em cena. Na plateia, um casal cochicha e saca o celular procurando entender também. A moça confirma após uma breve consulta: “Édipo matou o pai e casou com a mãe”. De repente, me ocorre o óbvio: nesse auditório lotado, há gente que hoje tem seu primeiro contato com a história de Édipo, o que em si só já pode ser justificativa suficiente para o gesto de atualização dessa versão de Robert Icke, realizada em São Paulo pelo Círculo de Atores - se é que é necessário justificar alguma coisa. Em entrevista para a Vogue americana, o próprio Icke fez sua profissão de fé: “[minha] maior responsabilidade é para com o jovem de 14 anos que não leu nada, não sabe de nada, que foi arrastado para o teatro por um dos pais, um dos avós, ou responsável. Você quer que aquilo exploda a cabeça dele. E acho que estou preparado para sacrificar quase tudo para entusiasmar essa pessoa”. Mas entusiasma?

É noite de apuração eleitoral, Édipo é o favorito a vencer. Acossado por jornalistas, Édipo promete que vai mostrar a sua certidão de nascimento para provar suas origens e também que vai reabrir as investigações para descobrir o assassino de Laio. O orgulho e autoconfiança do personagem grego estão aí. Mas esse Édipo do terceiro milênio soa também como um líder político contemporâneo, preso num ciclo vicioso de notícias impulsionadas por algoritmos: suas promessas cheiram a bravata, resvalam na fanfarronice. Assim como em Sófocles, com o cunhado Creonte, Édipo é persecutório e agressivo, parece acreditar que qualquer crítica seja um complô.

Esses elementos presentes já no início da peça poderiam tender para uma crítica à figura centralizadora do líder, que é pretensamente carismático, mas hipócrita tanto na vida política quanto no trato familiar (por exemplo, no virtue signalling da aceitação do filho gay). Mas a peça não vilaniza Édipo. O que ela mostra é um homem um tanto quanto cheio de si, mas que é um político determinado e também um pai dedicado e marido apaixonado. Esse deslocamento maior da trama para o ambiente familiar é uma das inovações do texto de Icke que, se por um lado, trivializa a tragédia como drama burguês, por outro, coloca em cena detalhes cotidianos que trazem o erotismo do casamento incestuoso para o primeiro plano.

Clarisse Abujamra como Jocasta - foto de Ronaldo Gutierrez

Em uma cena de intimidade, Édipo se ajoelha diante do sofá onde Jocasta está sentada e coloca a cabeça entre suas pernas, por debaixo do seu vestido, para fazer sexo oral na própria mãe. Em conversa, a diretora Clara Carvalho comentou comigo a riqueza cênica desse gesto: “É como se ele se enfiasse lá de onde ele saiu, é como se ele mergulhasse para voltar para dentro da mãe dele”. O que Édipo diz nesse momento é também revelador: “Tudo o que eu fiz na vida foi só para impressionar você”. Para Clara Carvalho, esse erotismo entre os personagens seria um indício de “uma camada muito arcaica no psiquismo da gente, que é incômoda, esquisitíssima, quando a gente vê concretizada”. E é realmente escandaloso não só encenar o incesto de modo explícito, como também fazer com que esse desejo perdure mesmo depois que Jocasta e Édipo sabem que são mãe e filho, outra escolha ousada do Mr. Icke.

No que diz respeito ao desenvolvimento do enredo, a versão de Icke retira ou minimiza o papel dos oráculos e da religiosidade grega em favor da política e da vida burguesa modernas (há uma breve exceção na cena de Tirésias, que comento a seguir). A gente pode dizer várias coisas sobre Édipo, uma delas é que é uma tragédia do conhecimento, ou melhor, do descompasso entre o conhecimento humano e o divino, que na versão grega é posto em cena na forma de oráculos. Na versão modernizada de Icke, mais do que uma predeterminação divina ou até mesmo uma dupla motivação, divina e humana, o que decide o destino de Édipo é o acaso. A morte de Laio é totalmente casual, resultado de um acidente de carro, do qual Édipo foge por instrução do motorista de Laio, e que vai ficar 37 anos sem consequência aparente.

Nesse contexto, Tirésias surge como elemento estranho e anacrônico. Para a diretora, ele é como se fosse um fragmento da tragédia antiga, uma “licença poética” que o Icke faz. O intérprete Oswaldo Mendes cita o próprio personagem: “Ele fala: ‘as minhas palavras vêm descompassadas no tempo’, com isso ele localiza nessa ação contemporânea essa ligação com o passado do personagem e de toda a história do Édipo”. Se o aceno era para a parte da plateia que conhecia a tragédia grega, avisa que eu acenei de volta. Tell your blind seer I said hi 🙋‍♀️👨‍🦯

Oswaldo Mendes como Tirésias - foto de Ronaldo Gutierrez

No que tange aos personagens, a maior inovação diz respeito à relação entre Jocasta e Laio. O falecido governante é lembrado como um pedófilo, corrupto e perverso, que estuprou Jocasta e a engravidou quando ela tinha apenas 13 anos. Essa caracterização de Laio e o estupro de Jocasta trazem à cena temas de grande apelo à sensibilidade moderna, como a violência do patriarcado e a relação entre poder e opressão contra mulheres e crianças. Esses temas, no entanto, não chegam a ser intensamente discutidos ou elaborados no palco, funcionam quase como se só acrescentassem mais uma pátina de modernidade à peça. Mas essa revelação do estupro de Jocasta vem em um monólogo emocionado/emocionante que rendeu à atriz britânica Lesley Manville (a princess Margaret de The Crown) um Olivier e um Tony pelas versões do West End e da Broadway, dirigidas pelo próprio Icke.

Clara Carvalho - divulgação

A propósito, perguntei a Clara Carvalho se ela havia assistido a essa versão americana. Ela me contou que a produção do espetáculo a enviou para Nova Iorque para ver a montagem da Broadway e me explicou algumas divergências de concepção estética e uso do espaço cênico entre as duas montagens. Por exemplo, enquanto a versão americana se manteve confinada à caixa cênica, ambientada em um escritório, a produção brasileira expandiu a cena para o espaço do auditório, espalhando bandeiras e televisões ao longo da plateia. As soluções visuais e narrativas também tomaram rumos diferentes: a cena inicial na Broadway exibe a projeção de vídeo no pano de boca, recurso que nem seria possível no auditório do Masp, onde não há pano de boca nem cortinas. Na morte de Jocasta, a encenação de Nova Iorque tinha um viés mais realista, ocorrendo atrás de uma parede de vidro que se cobria inteiramente de sangue com o impacto. Outras diferenças dizem respeito à postura de Édipo quando fura os próprios olhos (de joelhos na montagem paulistana e de pé e de perfil, na versão americana), à movimentação à mesa de jantar, ao uso maior ou menor de figurantes, entre outros pontos. Nuances que Clara e o cenógrafo Chris Aizner precisaram repensar ao recriar a obra para os palcos paulistanos.

Um elemento cênico presente em ambas as montagens, e já usado anteriormente por Icke em seus Romeu & Julieta e Oresteia, é o cronômetro que faz uma contagem regressiva até o momento em que Édipo descobre a verdade. Combinado ao suspense do enredo e à expectativa ansiosa pelo resultado da eleição, esse cronômetro ajuda a criar um clima de tensão na plateia. Qual é a bomba que vai explodir quando o relógio chegar a zero? A bomba, é claro, é a verdade da identidade Édipo, que culmina em mais uma cena de tesão entre mãe e filho (aquela que fez o casal do início do texto procurar “Édipo” no Google) e no posterior suicídio de Jocasta (com um tiro, a sombra da sua silhueta delineada em segundo plano) e na automutilação de Édipo, que usa o salto da mãe/esposa para furar os próprios olhos.

Em outra entrevista, à revista Critical Stages/Scènes Critiques, Icke diz: “Em Édipo, é fácil fazer o público reagir com um ‘eca, incesto’. O difícil é fazê-lo querer que o incesto continue. O desafio é levar o público a um lugar aonde ele não sabia que poderia chegar”. Uma ambição e tanto, mas que para mim, ao menos, não chega a se realizar.



Clara Lacerda Crepaldi é doutora e mestra em Letras Clássicas pela Universidade de São Paulo (USP). Integra o grupo de pesquisa Estudos sobre o Teatro Antigo (GTA-USP). Traduziu do grego as Fábulas de Esopo (Martin Claret, 2017) e as tragédias Helena (FFLCH, 2015), Alceste, Heraclidas e Hipólito (Martin Claret, 2017).

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