MITsp 10 anos – um alerta dos idealizadores
[Eu ainda redigia este post quando vi a notícia na Folha de S. Paulo de que a Feira Preta foi cancelada em São Paulo por falta de patrocínio]
Por Renata Cazarini
Mal e mal tenho escrito no blog, que é pra ser um
arquivo, um banco de dados sobre peças de mote mitológico ou histórico da Antiguidade,
e, assim, atender pesquisadoras/es, sendo eu mesma uma delas. Bom, a vida me
atropela e, mesmo tendo visto boas peças, não tive tempo de escrever sobre
elas. Mas agora, neste post, a minha efetiva ausência é que motiva a escrita,
que não pode esperar.
Neste 2025, em que a Mostra Internacional de
Teatro de São Paulo (MITsp) completa 10 anos de montagens, não de existência pra
valer, já que sua primeira edição foi em 2014 (sem programação em 2021 e 2023),
eu não estava em SamPã (salve Zé Celso!), perdi tudo e lamento mesmo. Fiz uma
nota sobre Antígona Travesti, de Renata Carvalho, pra ficar o
registro até que eu possa ver esse trabalho da minha xará extraordinária.
Bem, o que importa dizer é que abri e comecei a
ler a publicação da MITsp 10 anos, que tem acesso livre, e não pude me
conter diante do texto dos idealizadores, do qual faço um recorte a seguir:
Por todas essas
conquistas, esperávamos fazer uma comemoração especial e robusta de nossos dez
anos. Porém, a realidade que se impôs foi outra. As dificuldades financeiras resultantes
de políticas públicas precárias e sem continuidade para a área artística, o recuo
de apoios importantes para essa edição, o desinteresse de parte do setor
privado em promover ações culturais mais arrojadas e menos comerciais e o fato
de a MITsp não ter sido aprovada em nenhum dos editais públicos para este ano,
tudo isso resultou numa edição reduzida, muito menor da [sic] que havia sido
idealizada. Somou-se a isso a inflação e alta do dólar e do euro, além da carga
tributária que se paga sobre os cachês internacionais (37,13%). Houve um corte,
por exemplo, de 60% da programação internacional, o que nunca tinha ocorrido
nesses dez anos da mostra. Por isso, nunca é demais lembrar que um festival internacional
de artes cênicas, qualquer que seja, necessita de apoio financeiro considerável
para a sua realização e continuidade.
[...]
Não se trata de lamentar apenas, mas de lançar
um alerta e um pedido de ajuda para que a mostra não continue a minguar a cada
nova edição até o seu desaparecimento. Enfraquecer, desnutrir, desidratar é
uma forma de matar lentamente. Por isso, a importância de que mais empresas e o
poder público tomem o festival nas mãos e possam transformar São Paulo, durante
dez dias em março, numa capital internacional das artes cênicas.
Minha primeira ponderação
Vou admitindo, de cara, que meu interesse pela
MITsp foi, com mais frequência do que menos, voltado para as peças
estrangeiras, às quais eu sabia que não teria acesso em outra oportunidade. Até
este ano não tinha havido um ano em que eu não tivesse comparecido em pelo
menos uma sessão da MIT – e, sim, foi maravilhoso ver as que mais me impactaram:
Gólgota Picnic, de Rodrigo García,
Espanha (2014)
Árvores abatidas, de Krystian Lupa, Polônia (2018)
Três peças do suíço Milo Rau na 6ª MITsp (2019)
Contos Imorais – Parte 1: Casa Mãe, de Phia Ménard, França (2020)
Três peças do sul-coreano Jaha Koo na 9ª MITsp (2024)
Vergonha, vergonha, vergonha – mesmo tendo ficado mesmerized
com a trilogia desse sul-coreano estabelecido na Bélgica, não finalizei o post,
que só agora sai publicado, incompleto como está, mas como uma homenagem
à MITsp.
O tal corte de 60% da programação internacional da MITsp 10, que se encerra neste domingo, 23, deve ter sido ainda maior, considerando-se a expectativa da celebração de uma década. Digo isso em função das declarações dos idealizadores à Folha de S. Paulo:
“Neste ano, apesar da
celebração dos dez anos, tivemos de reduzir a programação. De 15 espetáculos
estrangeiros pré-selecionados, 4 irão se apresentar", diz Guilherme,
diretor de produção.
"Foi muito duro fazer esse corte, o desenho curatorial vai se desmanchando, abrimos mão de espetáculos que discutem coisas importantes para nós brasileiros", diz Antonio.
Se considerarmos 4 projetos internacionais de 15, o índice de realização nem chega a 30%. Fiz um levantamento rápido e – tá certo – nenhuma edição chegou a ter tantas peças estrangeiras. Por incrível que pareça, 2020 seria um paradigma, com 11 convidados do exterior, mas foi interrompido pela pandemia da covid-19: eu mesma tinha ingresso na mão para ver Sopro, de Tiago Rodrigues, mas não deu.
Minha segunda ponderação
Assim, diante do alerta, fiquei pensando o que
teria sido da MITsp 10 se não tivesse sido criada em 2018 a MITbr, braço
nacional, que foi dominante na edição de 2025 – na verdade, meio que desde
sempre, já que têm sido apresentados dez ou mais projetos a cada ano (exceto em
2022). Outra ação que garante a relevância do evento é o circuito off MITsp,
o Farofa (antes, Faroffa), com foco na produção nacional.
Então, parece que o “internacional” vai se
fragilizando. Sem planejamento de longo prazo, que depende de recursos
financeiros assegurados com antecedência, como trazer produções estrangeiras
que aparecem nas agendas dos grandes festivais do mundo? Certamente São Paulo
tem potência econômica para bancar esse tipo de iniciativa cultural. Cadê essa
gente? Mais algumas reflexões das Cartografias da MITsp 10:
O desafio de celebrar os dez anos da MITsp impõe
uma reflexão que vai além da memória do festival. É um convite para projetar
possibilidades e desafios para o futuro do teatro, considerando seu papel em um
mundo cada vez mais complexo. Essa celebração passa, inevitavelmente, pela
análise dos próprios festivais: suas estruturas, limites e potências enquanto
espaços de experimentação artística e resistência cultural.
Pensar o teatro como prática crítica exige que
olhemos para além das fronteiras disciplinares que tradicionalmente enquadram o
fazer artístico. A intersecção entre diferentes linguagens, suportes e métodos
tem ampliado os modos de criação e recepção da cena contemporânea, desafiando
os limites entre obra e espectador, entre dramaturgia e performance, entre
corpo e discurso. Esse deslocamento nos impulsiona a investigar como o teatro
pode continuar a ser um espaço de invenção estética, mas também de articulação
política e social.
Minha terceira ponderação
Ainda refletindo sobre quem articula a sobrevivência do teatro alternativo, isto é, aquele que não é o dos grandes musicais ou das estrelas televisivas, surge o Sesc, que tem diferentes graus de envolvimento neste e em outros festivais de teatro no estado de São Paulo. É o caso de acompanhar o que será este ano do Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto (FIT Rio Preto / @fitriopreto), que acontece em julho no interior do estado, e do Mirada – Festival Ibero-americano de Artes Cênicas (@sescsp), previsto para setembro na baixada santista, litoral de São Paulo.
Minha quarta ponderação
Tenho a impressão de que encontra abrigo na MITsp o embate/debate sobre quais atividades cênicas devem conquistar slots nessa agenda tão prestigiada. Meu questionamento nem mesmo é inédito já que a curadora do eixo Ações Pedagógicas da MITsp apresenta tais perguntas:
Será que ao eleger o
teatro (colonizador, eurobrancocentrado) como um campo hegemônico ele não se
tornaria um “eu” excludente em relação à rica diversidade cênica existente? Em
que medida, ocupando o lugar de centralidade, o teatro dialoga dignamente com
os “outros” cênicos?
[...]
O que chamamos aqui de culturas cênicas diz respeito a uma diversidade de expressões e criações humanas, (incluindo o teatro, mas não só ele) que são gestadas em ritualizações que lidam poeticamente com a nossa existência. Muitas delas, chamadas de culturas populares, são de matrizes indígenas e africanas, gestadas, paridas, nutridas e mixadas em solos brasileiros, em estado de celebração e/ou mesmo em estado de enfrentamento a um sistema de extermínio. Suas formas de ser e de se manifestar são múltiplas, com um leque amplo de poéticas elaboradas e fundamentadas em ritos de expurgação e afirmação de curas. (Alexandra Gouvêa Dumas)
Foi o que vi em 2024 nas ritualizações cênicas da MITbr. Talvez - infelizmente - seja necessário (re)pensar a vocação do evento, admitir um redimensionamento do "internacional". Outras opiniões pinçadas da publicação da MITsp 10
vão nesse sentido:
Para finalizar, a MITsp
consolidou-se, ao longo de sua trajetória, como um espaço de encontros, trocas
e provocações que transcendem a cena teatral. Mais do que uma mostra de
espetáculos, tornou-se um território fértil para a reflexão crítica, a internacionalização
e a valorização da diversidade, dando visibilidade a artistas e discursos
muitas vezes marginalizados. (Ferdinando Martins, prof. ECA-USP)
Ao mirar os rumos que a
curadoria de espetáculos internacionais da MITsp tomou no decorrer dos anos,
seria possível dizer que o investimento na verticalidade das experimentações cênicas,
principal DNA da mostra, agora se entrelaça à tentativa de radicalizar seu viés
decolonial, sobretudo pela valorização recente de trabalhos de regiões do
planeta que não haviam ainda recebido a devida atenção por parte do festival. (Julia Guimarães e Pollyanna
Diniz, críticas de teatro)
Crítica, história, artes
da cena, são termos que hoje indicam campos de estudo e práticas abertas, muito
favoráveis à mediação e sempre carentes de pontos de vista que lhes ofereçam
ossatura e sentido. Diante destas frentes, tomadas em seu fugidio movimento, a Mostra
Internacional de Teatro de São Paulo tem sido, nos dez anos completados nesta edição,
um espaço para enfrentamentos que repõem continuamente essas expressões,
assimiladas, na prática, como busca pelo contraste produtivo entre estética
avançada e vida ordinária, que a mostra nos faz ver. (Kil Abreu, jornalista,
crítico e curador)
A última ponderação (que não é minha)
Fecha o ciclo de reflexões esse excerto do
depoimento de um dos nomes mais importantes da dramaturgia nacional, acolhido na
MITsp. O bold é meu, para destacar que fala diretamente com o alerta dos
idealizadores, lá no alto deste post, também em bold. O itálico e a
caixa alta são da autora.
Desejo vida longa à MITsp. Mas não uma mera vida, dessas que vão minguando por inanição, fazendo concessões aqui e ali, sucumbindo às pressões do mercado, das instituições, dos moralismos – tanto da direita quanto, infelizmente, da esquerda. Não isso. Mas uma VIDA PLENA, com as condições materiais necessárias e, principalmente, com a coragem e a ousadia de seguir suas vocações de ser trânsito, espanto, risco e porvir. (Janaina Leite, dramaturga, atriz, encenadora)
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