Programa Pentesileia, Treinamento para Batalha Final



Mito: Amazonas
Texto: Lina Prosa
Tradução: Laymert Garcia dos Santos
Temporada: 01.06 a 25.06.17 (RJ) – 06.07 a 15.07.17 (SP)  
Local: Sesc Copacabana | Rio de Janeiro (RJ)  Festival Internacional de Teatro de Rio Preto | São Paulo (SP)  
Direção: Maria Thaís
Grupo: Cia Teatro Balagan    
Elenco: Maria Esmeralda Forte, Antonio Salvador
Assistido em: 25.06.17 (RJ) 

Primeira montagem no Brasil da obra da dramaturga italiana Lina Prosa, a peça marca os 80 anos de vida e 60 de carreira da atriz Maria Esmeralda Forte. O cenário de Márcio Medina é uma instalação multifacetada unindo látex e referências à Amazônia.


A siciliana Lina Prosa criou a primeira versão da peça "Pentesilea, allenamento per la battaglia finale” em 2008 para Muriel Mayette, então diretora da Comédie-Française, onde houve uma leitura pública em 2009. A dramaturga relata:


“Lembro-me da primeira leitura do texto em 2009, em Paris, na Comédie-Française, quando eu tratava apenas de Pentesileia e um espectador me pediu para escrever sobre Aquiles, o que me levou a completar a estrutura dramatúrgica atual”. (Declaração no programa da peça)

Primeira montagem no Brasil da obra da dramaturga italiana Lin
a Prosa marca os 80 anos de vida e
60 de carreira da atriz Maria Esmeralda Forte, que contracena com Antoni
o Salvador em narrativa
inspirada no mito das amazonas. O c
en
ário de Márcio Medina é uma instalação multifacetada unindo
látex e referências à Amazônia.
A amazona Pentesileia de Lina Prosa encontra a amazona Maria Esmeralda, no alto dos seus 80 anos: um corpo vivido, repleto de marcas, de outros corpos, de muitas narrativas, de muitos teatros. Pentesileia se prepara para um hipotético encontro com o herói Aquiles.


Ainda que abandonada em um asilo/hospício/prisão/convento, a rainha guerreira surge plena de potência e de sabedoria e em seu delírio lúcido Aquiles não é mais que a projeção de uma luta interior, dilacerante, entre o masculino e o feminino, no qual o plano da realidade da obra muitas vezes se confunde com o da narrativa mítica. (Divulgação)




Bibliografia

O mítico encontro entre a líder amazona Pentesileia e o herói Aquiles pode ser resgatado principalmente no Livro I dos 14 livros do poema de Quinto de Esmirna, autor do século III ou IV d.C., chamado Posthomerica ou ο μεθ᾿ μηρον λόγοι.

O poema de 8800 versos hexâmetros datílicos em grego narra os acontecimentos que se seguem ao final da "Ilíada" de Homero, donde o título da obra. Pentesileia e outras amazonas combatem os gregos na guerra de Troia, mas é morta por Aquiles, que se maravilha com a beleza da guerreira vencida.

Dois excertos do poema grego na tradução espanhola em prosa de Mario Toledano Vargas (2004, Editorial Gredos):

“A las Amazonas, en cambio, desde un principio les agradaron el inexorable combate, la equitación y cuantas tareas ocupan a los hombres; por ello siempre aflora en ellas un ánimo belicoso y no son inferiores a los hombres, ya que ese adiestramiento ha acrecentado la gran fuerza de su ánimo y les impide a sus rodillas temblar”. (Livro I, vv.456-462)

“Exultante ante ella, mucho se ufanaba el hijo de Peleo: ‘Yaz ahora en el polvo como pasto de perros y aves, desdichada! Quién te engañó para que te enfrentaras a mí? Acaso anunciaste que regresarías de la batalla y te llevarías indecibles regalos entregados por el anciano Príamo, después de matar a los argivos? Pero ese propósito tuyo no lo cumplieron los inmortales, ya que somos con mucho los mejores héroes, gran luz para los dánaos y calamidade para los troyanos y para ti, infortunada, pues las tenebrosas Keres y tu própio espíritu te incitaron a abandonar las tareas de las mujeres y a encaminarte a la guerra, ante la que incluso los hombres tiemblan’”. (Vol.I, vv.643-654)  

Ilustração grega do mito

A dramaturga italiana Lina Prosa partiu da tragédia “Pentesileia” de Heinrich von Kleist (1777-1811), traduzida para o português  por Roberto Machado e Robert Weisshaupt (acesse o texto aqui).

Trecho do Monólogo de Aquiles, texto de Lina Prosa na tradução de Laymert Garcia dos Santos:

“A ela minhas homenagens. Estou pronto. Todo ano e nada de Aquiles. Macho, desejo, precisão, sedução, e não embate. Prego-a entre os opostos que ela sempre invocou. Outro tempo, outra história. Paz. Paz. Paz. Sinto o seu perfume, inspirado. Por que se esconde? O ar é assim tão hábil em protegê-la? O silêncio não a cobre. Deixa passar seu sopro até minhas orelhas. O que fazer? Estou aqui para sempre. Espero-a. O corpo vazio que me circunda será obrigado ao contato. Que seja veloz o mecanismo, que seja abandono, reconhecimento. Que seja uma prova de amor perfeito, eu e ela sem fuga, que seja a obra prima de quem espera pela eternidade. Com esse perfume que emana de seu corpo invisível quando neva no vale. É impossível enganar-se. Reconheço. Pinho silvestre. O banho de espuma de minhas abluções, de meus sucessos, de minhas lembranças. Pôs tudo na veia quando a atirei na poeira. Salvei a mulher, matei Pentesileia”.

Referências externas

Comentário

Embora a autora cite no programa da peça dois monólogos, a montagem brasileira se articula em três cenas-solo de trinta minutos cada: monólogo de Pentesileia, monólogo de Aquiles, novo monólogo de Pentesileia.

O texto é fortemente poético e central na encenação de Maria Thaís (“Não é uma janela aberta, o texto, ele precisa ser desvendado de alguma maneira”), que não descuida da cenografia, figurino, arquitetura de som e de luz. A feliz produção do conjunto só faz favorecer o excepcional desempenho de ambos os atores, que entregam o texto numa elocução formal e clássica (com uso do pronome “tu”, por exemplo), mas sem artificialidade.

Como se tem ouvido nos palcos atuais que abrigam textos antigos, a história é renovada (como “Mata teu pai”, de Grace Passô). Aquiles diz: “da decomposição e da recomposição dos sentimentos, mesmo os mais inconciliáveis, é do que tratam as novas histórias”. Nesta “nova” história, a amazona Pentesileia é uma antropófaga que deglute seu Aquiles. (Renata Cazarini)