CÃO – Magiluth e Clowns de Shakespeare fazem “Coriolano”
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| Giordano Castro como Shakespeare (foto de Renato Mangolin) |
Direção: Fernando Yamamoto e Luiz Fernando Marques (Lubi)
Caju Dantas: João (servidor de café) e Tulius (segurança) [Clowns]
Diogo Spinelli: Nickanor ou Nick (cerimonialista) [Clowns]
Erivaldo Oliveira: Adriano (cenotécnico), Veluto (maquiador), Saulius (segurança) [Magiuth]
Giordano Castro: Tito (maquinista), Clebson (segurança) + a menina Valentina, a unha do pé direito, Shakespeare [Magiuth]
Lucas Torres: Sicínio (técnico de luz), Aufidius (chefe de segurança) [Magiluth]
Mario Sérgio Cabral: Caio (chefe técnico), Volcius (adestrador de cães) [Magiluth]
Olivia León: Agripa (técnica de som), Dolores (maestrina) e Cassius (segurança)
Paula Queiroz: Virgília (chefe de produção), Volumnia (matriarca), Paulius (segurança) [Clowns]
José Medeiros (stand in) [Clowns]
Local: CCBB RJ – Sala de teatro 1 (160 lugares)
Vi em 14 mar. 2026
Apresentação única em Natal em 24 mar. 2026
Apresentação única em Recife em 28 mar. 2026
Temporada em Belo Horizonte confirmada
SINOPSE
CÃO é uma colaboração entre os
grupos Clowns de Shakespeare (RN) e Magiluth (PE), que nasceu de uma pesquisa
sobre o Brasil contemporâneo, suas contradições, afetos e resistências, com
foco na questão do trabalho precário em suas diversas facetas. Um grupo de
trabalhadores de eventos — mestres de cerimônia, técnicos de som e luz,
cenógrafos, produtores, seguranças etc. — após trabalharem ininterruptamente
por 48 horas para garantir que o teatro estivesse impecável para a posse do
recém-eleito líder da jovem república do Lácio, recebe uma notícia que
interrompe toda a programação e os coloca em uma situação de extremo estresse e
submissão aos interesses de pessoas poderosas cujas motivações lhes são
incompreensíveis. (Divulgação)
COMENTÁRIO
A gente ri pra valer de coisa muito séria – e complexa – acontecendo no palco de “Cão”, peça de teatro que reúne os coletivos Magiluth, de Recife (PE), e Clowns de Shakespeare, de Natal (RN). A temporada de estreia aconteceu no Rio de Janeiro (15 jan. a 15 mar. 2026), no Centro Cultural Banco do Brasil. É o tipo de proposta teatral que precisa e merece patrocínio, seja do governo seja da iniciativa privada. Desta vez, foi patrocínio do BB. Nova temporada acontecerá em Belo Horizonte, com duas apresentações únicas em Natal (24 mar.) e em Recife (28 mar.).
Então, trata-se de Shakespeare e de uma das suas peças pouco frequentadas: “Coriolano”, escrita entre 1607 e 1608, publicada pela primeira vez no First Folio, em 1623, sob o título “The Tragedy of Coriolanus”, retomando o relato biográfico que Plutarco, autor do século II EC, faz sobre o general romano que dá nome ao texto. Plutarco escreveu em grego as chamadas “Vidas paralelas”, colocando o general ateniense Alcibíades ao lado de Coriolano. Os dois estiveram exilados e mobilizaram forças inimigas contra suas respectivas cidades de origem.
Não é preciso saber nada disso para a experiência com “Cão”. É “arte viva”, como se tem chamado o teatro agora, daí, basta se soltar e gozar. Mas vou dizer que, se você se dá conta da complexidade dessa dramaturgia, o prazer aumenta. Quando fui ver, mesmo no final da temporada carioca, eu nem sabia que havia um subtexto shakespeariano – e romano! Só que aí a peça começa e informam à plateia que tem um cão chamado Coriolano (cão que a gente nunca vê, nem em vídeo, ainda bem!), nome incomum, que aciona alguma chave na memória. E o cão, contam, é pior que todos os políticos que assumiram o poder na jovem república do Lácio. Hum, tem algo aí: a língua portuguesa é a chamada “última flor do Lácio” (de um poema de Olavo Bilac, referindo-se à origem latina do nosso idioma).
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| Diogo Spinelli como Nick e "A perna direita" |
E, pra espanto geral, tomaria posse no exato dia em que se desenvolve a trama um político de nome Menenius, de quem só resta a perna direita. Vale lembrar a esta altura que “a perna cabeluda” é lenda do Recife, sede da trupe Magiluth. Ah, sim, e metáfora da opressão como aparece no filme “O agente secreto” (2025), do cineasta pernambucano Kléber Mendonça Filho. O cão a gente não vê, mas a perna a gente até pega ou toca nela, como aconteceu comigo quando ela circulava pela plateia. Pois bem, entre idas e vindas, a dúvida é se pode uma perna sem o resto do corpo tomar posse ou não: se está viva, ela pode sim. E, se não quer spoiler, pule o resto desta linha, porque...ela acaba abocanhada pelo cão.
Difícil afirmar o que seja uma adaptação teatral atualmente. O conceito é amplo e, cada vez mais, expandido. Ao mesmo tempo que a peça não retoma o título de Shakespeare, a dramaturgia explora à vontade os nomes dos personagens e vários motes do bardo inglês. Logo no início do primeiro ato, a plebe romana, se mobilizando num levante popular, diz que o alvo inicial tem de ser Coriolano, identificado, na tradução de Barbara Heliodora, como um “cão feroz” pelo povo (“Against him first: he’s a very dog to the commonalty”). O uso da perna como metáfora está totalmente conectado com o texto inglês, que associa a elite senatorial romana à barriga, “sempre a guardar reservas de comida sem trabalhar”, alegando prover a todas as partes do corpo, enquanto a liderança da plebe chega a ser chamada de “dedão do pé”, que vai à frente da revolta.
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| Criação de Bruno Parmera |
Se não toda, quase toda a divulgação da peça brasileira esteve associada ao tema da precarização do
trabalho, que é, de fato, central na montagem. A equipe técnica em um teatro
prepara o palco para a cerimônia de posse do governante, do qual só conhecemos
a perna direita e, momentaneamente, uma unha dela (Giordano Castro). Estafados,
eles reagem às ordens erráticas do mestre de cerimônias, que segue instruções do
exterior, recebidas em inglês. A depender do político que tomará posse, a
decoração será caramelo ou fúcsia – daí, as cores no cartaz.
No entanto, essa peça vai além disso. Algumas figuras da tragédia de Shakespeare aparecem também nas funções originais, como a personagem Volumnia (Paula Queiroz), que reproduz até trecho traduzido da peça inglesa. Assim, a dramaturgia de Fernando Yamamoto e Giordano Castro entrelaça dois tempos e duas situações de mando e desmando para iluminar o tema maior: a opressão que sofrem e o poder de decisão que está nas mãos das cidadãs e cidadãos. É uma peça para este ano eleitoral, sem dúvida.
Renata Cazarini



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