ASAS, PRA QUE TE QUERO - AUTOBIOGRAFIA DO VERMELHO, com Bianca Comparato
![]() |
| Bianca Comparato ao final da estreia em 27 fev. 2026 |
Dramaturgia: Gabi Costa, Bianca Comparato e Daniela Thomas
Direção: Daniela Thomas
Elenco: Bianca Comparato
Direção de produção: Fabiana Comparato
Cenário: Daniela Thomas e Felipe Tassara
Direção musical, composição e execução: Lello Bezerra
Direção de movimento e preparação corporal: Malu Avelar
Desenho de luz e operação: Sarah Salgado
Desenho de projeções: Henrique Martins
Figurino: Verônica Julian
Direção vocal: Leila Mendes
Visagismo: Walter Leal
Make-up Artist: Monique Couto
Coordenação de produção: Mariana Beltrão
Produção executiva e assistência: Arlindo Hartz
Produção de Figurino: Lia Damasceno
Coordenação de produção cenográfica: Mauro Amorim / Blue Bird Produções
Operação de vídeo: Via
Operação de som: Gabriel Edé
Temporada: 27 fev. – 22 mar. 2026
Local: Sesc Avenida Paulista (São Paulo)
Duração: 80 min.
Visto em: 27 fev. 2026 (estreia)
Gerião é o personagem principal da “Gerioneida”, um poema lírico narrativo escrito por volta de 650 A.C. pelo poeta grego Estesícoro, cujos poucos fragmentos foram encontrados somente em 1967, no Egito. A peça conta a sua história misturando fragmentos da peça original grega com criações de Anne Carson e intervenções de Bianca e de Daniela. Gerião, um menino que também é um monstro vermelho alado, revela o terreno vulcânico de sua alma frágil e atormentada em uma autobiografia que ele começa a escrever aos cinco anos de idade. À medida em que cresce, Gerião escapa de seu irmão abusivo e de sua mãe afetuosa, mas ineficaz, encontrando consolo na construção da sua autobiografia e nos braços de um jovem chamado Hércules, um andarilho que abandona Gerião no auge da paixão. Anos depois, quando Hércules reaparece, Gerião confronta novamente a dor de seu desejo e embarca em uma jornada por terrenos vulcânicos. A paixão obsessiva por Hércules leva Gerião até seu destino inevitável. (divulgação)
O primeiro registro do mito de Gerião/Gerioneu sendo morto por Hércules/Héracles que chegou até nós é da Teogonia de Hesíodo (séc. VIII AEC), versos 287 a 294, na tradução de Jaa Torrano:
unindo-se a Belaflui virgem do ínclito Oceano.
E a Gerioneu matou-o a força de Héracles
perto dos bois sinuosos na circunfluída Eriteia
no dia em que tangeria os bois de ampla testa
para Tirinto sagrada após atravessar o Oceano
após matar Ortos e o vaqueiro Eurítion
no nevoento estábulo além do ínclito Oceano.
Estesícoro (séc. VII AEC) produziu
o poema narrativo Gerioneida com detalhes do assassinato, conforme o
fragmento S15, na tradução de Roosevelt Rocha:
decisão de um deus;
e a flecha atravessou direto no
cume da sua cabeça,
e então tingiu com sangue púrp[ura
o tórax e os ensanguentad[os membros.
inclinou então o pescoço Gerião
para frente, como quando uma papoula
que desonrando seu corpo delicado
súbito tendo perdido suas pétalas...
Esse mesmo fragmento, na
versão de Anne Carson traduzida do inglês por Ismar Tirelli Neto no livro Autobiografia
do Vermelho (Editora 34, 2021, p. 16):
Flecha quer dizer matar Ela partiu o crânio de Gerião como
O pescoço do rapaz vergar A um ângulo lento e estranho
de lado como quando
Uma papoula se despetala num açoite da Brisa nua
Num artigo, o professor Roosevelt
Rocha (UFPR) apresenta o seguinte argumento, que situa o poeta grego arcaico como
elo entre a épica e a tragédia. Certamente essa posição ambígua interessa a
Anne Carson na sua recriação do mito no romance em versos de forte carga dramática:
E quando descreve a morte de uma das cabeças do monstro (S15), o poeta usa o mesmo símile que encontramos na Iliada, 8, 306-308, quando Homero descreve a morte de Gorgítion e compara a queda do cadáver à inclinação de uma papoula ao vento da primavera. Algo que chama atenção no símile estesicoreu é a introdução da queda das pétalas, que não estava em Homero e que, ao mesmo tempo, concede uma certa delicadeza à imagem horrenda da morte do monstro e nos lembra que ainda lhe restavam duas cabeças e que ele perdera apenas uma de suas ‘pétalas’. De certa forma, Estesícoro humaniza Gerião e faz com que pensemos nele com certa piedade e compaixão. A cena ganha, então, uma dramaticidade, uma tragicidade inesperada para esse tipo de situação. (...) O que me parece importante aqui é a ideia de que Estesícoro representa um elo entre épica e tragédia. Estesícoro tomou da poesia épica vários de seus elementos (fórmulas, símiles etc.) e parece ter influenciado de modo marcante os três maiores tragediógrafos da Antiguidade.
![]() |
| Bianca Comparato e Daniela Thomas |
Comentário
Tudo é vermelho. Ou
branco. Ou preto. No auditório escuro, montado com cadeiras avulsas no 13º
andar do Sesc Avenida Paulista, na capital de São Paulo, o cenário é uma tela
em branco, página de um livro a ser impresso pela sombra de Bianca Comparato,
atriz desse solo. E tinta vermelha. E imagens projetadas. O desenho de luz de
Sarah Salgado e a criação musical de Lello Bezerra compõem o tripé da montagem,
sob a direção de Daniela Thomas.
É a leitura cênica do
livro de Anne Carson de mesmo nome, publicado em inglês em 1998, traduzido por
Ismar Tirelli Neto para a Editora 34 em 2021. Na noite de estreia, Bianca foi
também facilitadora, introduzindo Anne Carson, sua obra, o mito de Gerião, o
poeta Estesícoro e os fragmentos em que se baseou a autora canadense para
compor seu romance em versos.
A dramaturgia, assinada
por Gabi Costa, Bianca Comparato e Daniela Thomas, mantém o formato livro, no
sentido de organizar o enredo em 25 capítulos, apresentados em números romanos
e títulos no telão. A montagem é enxuta diante dos 47 capítulos de Carson, seguindo
um fio condutor mais centrado na relação homoafetiva de Gerião e Hércules,
prescindindo, por exemplo, do debate sobre o ceticismo dos capítulos XXVIII a
XXX. E isso não é um problema.
A dramaturgia aproveita o
proêmio do livro de Carson, intitulado “Carne vermelha: que diferença fez
Estesícoro?” e o “Apêndice A: Testemunhos acerca da questão do cegamento de Estesícoro
por Helena”. Nada disso burocratiza a montagem, que é dinâmica e densa ao mesmo
tempo.
Ao longo de 80 minutos (na
sessão de estreia), Bianca é todas as personagens – Gerião, seu irmão, sua mãe,
Hércules, Ancash – sem recorrer a gestual clichê, situando a voz e o olhar para
diferenciar o brutamontes Héracles do sensível “monstrum” vermelho
Gerião.
É disso que tratam o livro
da canadense e a peça brasileira em cartaz: desconstruir no imaginário
ocidental os enraizados conceitos de herói – do qual Héracles/Hércules é o
paradigma com os seus 12 trabalhos – e de “monstro” como abominação porque,
entre outras figuras mitológicas, os gigantes Gerião e, por exemplo, Polifemo,
o ciclope da “Odisseia” de Homero, são prodígios, maravilhas da natureza.
No romance em versos de
Carson, não é só o vermelho que reverbera a estranheza do protagonista. Ele é
uma “pessoa alada vermelha” (p. 100). São as asas, que assumem em repouso a
forma do mapa da América do Sul (p. 118). Gosto de pensar que Gerião é um
precursor dos heróis mutantes da Marvel, o Anjo dos X-Men, criado em 1963 por
Stan Lee e Jack Kirby, que também se sujeita a camuflar suas asas.
![]() |
Na obra de Carson, ele “ajeitou
os músculos superiores das costas dentro do imenso sobretudo apertando as asas”
(p. 99). Noutra passagem, “elas farfalharam através de duas fendas cortadas nas
costas da camiseta de Gerião e murcharam um tanto no vento noturno” (p. 155).
Conquistar a autonomia que as asas dão é o desafio dessas personagens.
![]() |
| Frame do filme X-Men: O confronto final (2006) |
No elevador, após a estreia,
três pessoas conversavam e uma delas dizia que a peça “desandava” no final, bem
como, no entender desse leitor-espectador, o livro. “Autobiografia do vermelho” é um breve
romance arrebatador (leia aqui uma crítica que usa o mesmo adjetivo),
revelando a mitologia incrustada no cotidiano se olharmos bem, o que se comprova
em cena. O recurso à projeção de vídeos, que eu chamaria de cenográficos, vai crescendo
ao longo da peça e fragiliza um pouco o impacto inicial da atuante carregando o
mundo sozinha, como Atlas. Mas isso, gente, sou eu na plateia só.
Para que fique registrado: esta não é a primeira
montagem de “Autobiografia do Vermelho” no Brasil. Em março de 2024 estreou uma
versão no Centro de Artes da Maré, no Rio, com dramaturgia de Bruno
Siniscalchi, Ismar Tirelli Neto e Fabiana Comparato, que é irmã de Bianca,
agora na direção de produção. Também vale dizer que Bianca Comparato gravou um audiobook
do romance pela SuperSônica.
![]() |
| Bruno Siniscalchi (2024) Foto de Julia Menna Barreto |
Ingressos esgotados para
esta temporada. Merece prorrogação.
Veja o programa digital do espetáculo.





Comentários
Postar um comentário