ÉDIPO REI, A ÓPERA

 

ÉDIPO REI, A ÓPERA

Mito: Édipo Tirano (Sófocles)

Música: Luciano Camargo

Libreto em português: Rodolfo García Vázquez e Luciano Camargo

Ópera brasileira em 4 atos: Tebas, em frente ao palácio; No Templo de Delfos; Nos aposentos da Rainha Jocasta; Tebas, em frente ao palácio.

Direção cênica: Rodolfo García Vázquez

Direção musical e regência: Luciano Camargo

Elenco: Coral e Orquestra Cia. Uniopera, Ballet Jovem Cisne Negro. Solistas: Jabez Lima e Rafael Stein (Édipo, tenor), Joyce Martins (Jocasta, soprano), Rodolfo Giugliani (Creonte, barítono), Gabriela Bueno (Tirésias, mezzosoprano), Isaque Oliveira (Corifeu, barítono), Fellipe Oliveira (Mensageiro, baixo), Ernesto Borghi (Pastor, tenor).

Temporada: 26 set. 2025 (estreia mundial) – 05 out. 2025 

Local: Teatro Bradesco – São Paulo

Vista em 03 out. 2025


Sinopse
A ópera Édipo Rei de Luciano Camargo foi baseada na tragédia de Sófocles, primeira parte da Trilogia Tebana. A ópera preserva o suspense da dramaturgia grega, com a interação cênica dos personagens e a marcante participação do coro em cena, elemento distintivo do teatro grego antigo. (divulgação no perfil do Instagram @opera.edipo.rei em 12 fev. 2025)

Cronologia de Luciano Camargo até a estreia

2010: primeira parceria com Rodolfo García Vázquez, na ópera Orfeo e Euridice (Gluck), no Theatro São Pedro (São Paulo)
2013: participação na peça Édipo na Praça, da Cia. Os Satyros, composição de partes corais (São Paulo)
2015: decide compor a ópera após assistir à montagem de Oedipus Rex (Stravinski) no Theatro São Pedro (São Paulo)
2017: estreia da abertura sinfônica da ópera em 27 de setembro em Kiev (Ucrânia). Inicia carreira acadêmica como docente em Roraima.
2018: reconhece influência de ciclo de montagem de três óperas (São Paulo)
2019: compõe as duas primeiras cenas do Ato I
2020: apresenta as cenas em concertos em fevereiro (São Paulo), logo antes da pandemia.
2022: finaliza a composição graças à reclusão compulsória da pandemia
2023: passa a ser docente do Instituto de Artes da Unesp
2025: estreia mundial da ópera

Comentário
Era pra ser um grande acontecimento operístico, considerando-se que o mito de Édipo eternizado por Sófocles aconteceria, então, em português (libreto) em composição brasileira (música). Na plateia baixa (assento E4), tendo comprado o ingresso com seis meses de antecedência para a noite de 03 de outubro de 2025, frustrei-me. E não estava só, infelizmente. Outras colegas que lá estiveram também lamentaram: exemploDuas senhoras que eu não conhecia, sentadas à minha esquerda, se queixavam. Ameaçaram sair. Ficaram. A queixa da mais contrariada delas tinha foco na cenografia: cadê a riqueza do cenário da ópera? (sem aspas porque essa era a ideia, mas não anotei as palavras). Eu entendo a insatisfação. A Tebas helênica da Antiguidade tomava forma com longas faixas de tecido branco que desciam do teto rumo ao palco, numa tentativa de configurar as colunas gregas. Para mim, funcionou.

Cenografia de Stephanie Alvarenga. Crédito: Andrea Camargo (divulgação).

É tão difícil fazer isso: uma crítica franca de um projeto artístico pelo qual a gente torce muito. Imagina só o que representaria para uma pesquisadora de recepção dos clássicos o sucesso estrondoso de um Édipo Rei operístico em português brasileiro! Então, relutando em escrever sobre a minha experiência como espectadora nessa ocasião específica (e não sobre a temporada toda), decidi, afinal, publicar o post porque terei a oportunidade de ver novamente a ópera de Luciano Camargo na TV Cultura, emissora paulista, em uma semana (23 nov. 2025). O meu pacto comigo mesma é reeditar este post com revisões favoráveis à produção. Meu mote é/será esta afirmação tão simples e tão verdadeira de Patrick Pessoa (Dramaturgias da crítica, Editora Cobogó, 2021, p. 16):

Crítica é tentar enxergar os outros nos próprios termos deles, não nos nossos.


Maestro Luciano Camargo ao centro. Crédito: Renata Cazarini, em 3 out. 2025.

Adotei, nesta abordagem, o respeito à gênese da peça operística de acordo com a narrativa assinada pelo compositor e maestro Luciano Carmargo no programa e montei uma cronologia simplificada (mais acima). Vale ouvir esta breve entrevista em que ele explica muito e comenta a peça grega. Composta ao longo de uma década, Édipo Rei é “apenas o início de uma grande tetralogia tebana, que incluirá Édipo em Colono, Sete contra Tebas e será concluída com Antígone, que é a grande heroína desta história” (programa impresso, p. 9). É um projeto para mais de uma vida e merece ser louvado por si e por nutrir as expectativas do público.

Édipo (Rafael Stein) e Tirésias (Gabriela Bueno). Divulgação.
Só uma canção
Para uma espectadora não especialista, bastaria uma canção sedutora, memorável, e eu já ficaria satisfeita. Li todo o libreto depois, mas não me fez ouvir o eco da composição. Nessas horas, sempre me vem aos ouvidos “Sento una forza indomita” no dueto de Peri e Ceci (O Guarani, de Carlos Gomes). A presença de Tirésias foi marcante, numa combinação entre a surpresa de uma mulher fazer a parte do oráculo (mezzosoprano Gabriela Bueno), evocando a transexualidade mítica do personagem, e o apreciável figurino sem exagerados adereços dourados.

Libreto 
A impressão que tive durante o espetáculo foi confirmada no libreto, depois. Os textos das árias têm um caráter prosaico (exemplo: CREONTE – Todos os homens que o acompanhavam foram massacrados exceto um que se salvou – aterrorizado!). Mesmo que as frases sejam, em geral, curtas, ainda assim é discursivo. É uma escolha. Não seria a minha. Já nas partes corais, há uma busca da estrofe, do metro e da rima, às vezes, fácil (exemplo: CORO (Primeiro estásimo) – Zeus, da doce palavra, / Tu nos guias por qual chão? / Em Tebas dor amarga / Morte e dor é provação! / Zeus, da doce palavra, / Livra-nos da maldição.).

Jocasta (Joyce Martins) e suas "damas de companhia" do Ballet Jovem Cisne Negro. Divulgação.

Maior desconforto

Aquela não é a Jocasta do Édipo de Sófocles. Reclinada num balanço todo florido, acompanhada de jovens damas num bailado clássico, o programa informa que, “angustiada, ela tenta distrair-se da situação em que a cidade se encontra” (programa impresso, p. 5). Como se um interlúdio dançado, essa cena causa desconforto para quem conhece a rainha de Tebas na versão sofocliana, nada primaveril.

Agrado maior

O Coro, com frequência, me cativa. Foi a composição das partes corais para a peça da Cia. dos Satyros que deu início ao trabalho de Luciano Camargo, assumindo o papel de Corifeu e cantando recitativos à capela naquela ocasião (programa impresso, p. 6). O Coro de cidadãos canta um “Hino da cidade de Tebas” que recupera frases do Hino Nacional Brasileiro, invocando igualdade e liberdade. Desnecessário.

Sobre “óperas greco-brasileiras”
Em 1898, o cearense Alberto Nepomuceno (1864-1920) compôs Artemis, ópera em um ato com libreto em português do maranhense Coelho Neto (1864-1934).
Em 2016, houve a estreia mundial de Medeia, música e libreto de Mario Ferraro, ópera contemporânea brasileira em 1 ato.
Vale destacar a compositora Jocy de Oliveira, que fará 90 anos em 2026 com a estreia mundial de uma ópera encomendada pelo Theatro Municipal de São Paulo (TMSP), em programa duplo com a ópera-oratório Édipo Rei (1927) de Igor Stravinski (1882-1971). É dela a ópera Kseni – A estrangeira (2006), com base no mito de Medeia (Eurípides). Sobre a estreia dessa obra, 20 anos antes da nova ópera, leia aqui.

Sobre a ópera de Stravinski, o compositor brasileiro da ópera homônima faz um comentário que merece ser citado longamente:

[o] conhecimento da obra Oedipux Rex de Igor Stravinski – igualmente baseada em Sófocles – sempre representou um fator de dúvida. Afinal, não parecia muito auspicioso escrever uma ópera que, já desde seu título, enfrentaria comparações com a obra do célebre compositor russo. Mesmo consciente da recorrência histórica da situação de haver diversas óperas baseadas em argumentos e libretos semelhantes, relutei em iniciar a partitura até assistir à montagem do Oedipus Rex realizada pelo Theatro São Pedro no ano de 2015. Foi nessa oportunidade que compreendi que o libreto de Jean Cocteau, apesar de ser fiel ao enredo de Sófocles, não tinha como proposta a tensão dramática que caracteriza a ação teatral do original grego. A pedido do próprio Stravinski, o libreto deveria representar os personagens como se fossem estátuas, com um mínimo de atuação cênica, resultando em uma obra cujo estilo é muito mais próximo à forma de oratório do que propriamente uma ópera, apresentando ainda um narrador falado. O fato de a obra ser cantada em latim já revela em grande medida a singularidade da proposta de Stravinski. A partir de então, fiquei convencido de que valeria a pena escrever uma ópera que pudesse recriar a dramaticidade do ritmo narrativo de Sófocles, em especial por ser escrita em nossa língua portuguesa. (Luciano Camargo, programa impresso, p. 7)

Divulgação

A foto acima diz muito sobre a concepção dessa ópera brasileira. É uma leitura que ainda vê a cultura grega como mármore branco. A idealização de um repertório como marco civilizacional deve estar constantemente em xeque. É nossa tarefa, como agentes de cultura, desafiá-lo. Faltou isso.

Para saber mais sobre a ópera no Brasil, a Funarte disponibiliza este livro, publicado em 2022: Panorama da ópera no Brasil

Crítica da revista Concerto

Crítica do blog Vendo Teatro


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