KATÁBASIS, de R. F. Kuang (resenha)

 

KATÁBASIS, de R. F. Kuang (resenha)
Tradução de Marina Vargas
Intrínseca (2025)
480 páginas
Lançamento: 26 ago. 2025 (inglês)
Lançamento: 02 set. 2025 (Brasil)

Quando o orgulho acadêmico leva ao mundo dos mortos

Por Renata Cazarini

Não são apenas heróis que empreendem a épica viagem ao mundo dos mortos e voltam para a vida na superfície junto aos vivos. Dois jovens pós-graduandos da Universidade de Cambridge vão aos infernos “reanimar” seu terrível orientador, morto em um experimento de magia. As razões para esse empreendimento são um tanto confusas: garantirem as cartas de recomendação que podem assegurar o futuro de ambos, redimirem-se da culpa por seu envolvimento na morte do professor, angariarem renome por terem realizado proeza modernamente impossível.

Pensando bem, tal como heróis, eles são eleitos, escolhidos: Alice Law e Peter Murdoch são destacados pesquisadores da magia, com grande potencial de sucesso acadêmico, porém rivais na atenção do orientador Jacob Grimes, ainda que ele seja um assediador moral e sexual.

Rebecca F. Kuang, ficcionista premiada de origem chinesa que publica em inglês, entrega sem pudor o desfecho da trama já no título do livro Katábasis (Editora Intrínseca, 2025, 480 p.). Basta conhecer em linhas gerais a Divina Comédia, de Dante Alighieri, e a relevante passagem da catábase do protagonista Eneias no poema épico latino Eneida, de Virgílio.

Rebecca F. Kuang

Alice e Peter, embora tenham feito a lição de casa, ou seja, pesquisado a fundo todos os relatos sobre a catábase, o rio do esquecimento Lete, a metempsicose, estudado inúmeros paradoxos e feito cálculos e mais cálculos para traçar pentagramas mágicos, dependem, por fim, de guias para entenderem o que é a morte e fazerem o trajeto de volta, tal como acontece com Eneias e a sombra de seu pai, Anquises, tal como o fantasma do autor latino Virgílio é o guia do florentino Dante.

Kuang faz várias referências a personalidades históricas, como os expoentes da Filosofia Antiga Sócrates, Platão, Aristóteles, mas os guias John Gradus e Elspeth Bayes são fictícios, sendo que esta última, uma suicida, é a grande mentora de Alice sobre o valor das pequenas coisas da vida, tipo, chá com biscoito. O ambiente é inglês, mas a protagonista é estadunidense, como Kuang, e o nome Alice não parece aleatório já que Lewis Carroll é mencionado. A incomum topologia do mundo inferior é um tema recorrente, enigmática como a “fita de Möbius”, referida no trecho abaixo do livro:

She had to look away; the looping made her head hurt. And yet this made perfect sense. Lewis Carroll had theorized this -- how else did you conceptualize life and death, the membrane of passage, except as continuity? -- but no one believed him. Take a strip of paper, twist it in the middle, and connect the ends. Very good. Now you have a ring, a three-dimensional object you can hold in your hand. But it only has one side. The inside is continuous with the outside.

Alice teve que desviar o rosto. A repetição infinita lhe dava dor de cabeça.  E, no entanto, fazia todo o sentido. Lewis Carroll havia teorizado isso: de que outra forma poderíamos conceber a vida e a morte, a membrana da travessia, a não ser como continuidade? Mas ninguém tinha acreditado nele. Pegue uma tira de papel, torça-a no meio e una as extremidades. Muito bem. Agora você tem um anel, um objeto tridimensional que pode segurar nas mãos. Mas ele tem apenas um lado. O interior é contínuo com o exterior. (Trad. Marina Vargas, p. 447)

Se ainda não entendeu, sugiro dar uma olhadinha neste vídeo sobre a matemática das superfícies.

Alice Law (ilustração que não consta da publicação)

O livro se enquadra na categoria “dark academia”, produção literária ficcional ambientada no mundo acadêmico de prestígio, no caso de Kuang, na Inglaterra das universidades de Cambridge e Oxford, o afamado ambiente Oxbridge. A escritora, egressa de estudos chineses justamente de Oxbridge e tradutora de mandarim, é autora também de “Babel” (2022), outro livro classificado como “a campus novel”, sobre o qual escrevi aqui.

Essa tendência social de romantizar o mundo acadêmico tem uma estética própria – moda, decoração, arquitetura – que se reflete no cenário do Hades em tons de cinza, associados à constituição das “sombras” (fantasmas) como esfumaçadas, quando apenas o sangue indispensável para a magia poderosa no mundo infernal tem efetivamente cor.


SPOILER!

Essa versão atual de Orfeu e Eurídice, na qual Alice é que resgata Peter, se passa na década de 1980 sem explicação suficiente, mas talvez seja possível entender a escolha recuperando referências como o livro de Tom Wolfe "A Fogueira das Vaidades" (1987) e o filme Wall Street (1987), que no Brasil teve o subtítulo “Poder e cobiça”, num ambiente conhecido à época como Yuppie Culture ("Young Urban Professionals" ou Yuppies), representantes da “decade of greed”, uma década com foco no consumo de bens de luxo, quando o uso da cocaína foi também símbolo de status. Bom, a certa altura Alice cheira giz e – hum... – ganha superpoderes? Kuang menciona isso quase com inocência.

Por fim, a representação do senhor do mundo dos mortos no livro é uma escolha livre de Alice, o que reafirma a liberdade religiosa permeando a obra de Kuang. O escolhido é o Rei Yama, do budismo, senhor dos domínios que incluem oito tribunais, como o da Ganância (“greed”), mas também o do Orgulho (“pride”), representado por uma biblioteca, destino final que caberia a Alice e Peter. Quem sabe, a muitos de nós...

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