21 passos para MdEa
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Carolina Fabri como MdEa (divulgação) |
Atuação: Carolina Fabri
Assistente de Direção: Marina Vieira
Figurino: Marichilene Artisevskis
Cenografia: Julio Dojcsar
Iluminação: Marcelo Lazzaratto
Realização: Cia. Elevador de Teatro Panorâmico
Assistente de Direção: Marina Vieira
Figurino: Marichilene Artisevskis
Cenografia: Julio Dojcsar
Iluminação: Marcelo Lazzaratto
Realização: Cia. Elevador de Teatro Panorâmico
Temporada: 29 nov. – 15 dez. 2024 (exceto dia 13)
Sextas às 20h | Sábados e domingos às 19h
Duração: 60 minutos
Entrada gratuita
https://www.sympla.com.br/ciaelevador
Assistido em 07 dez. 2024
Algumas lembranças pessoais somadas a imagens daquilo que certamente não viveu diretamente, mas que lhe parecem ser verdadeiras, começam a se fundir e revelar a ela o porquê da sua situação.
Sua identidade de mulher contemporânea, com seu lar, marido e filhos, se funde nas linhas escritas por Eurípedes, mas também em toda a mitologia concernente a figura humana tão especial. Escolhemos Medeia e toda a mitologia que a cerca, bem como nos inspiramos nos inúmeros desdobramentos poéticos que ela ajudou a conceber com o passar dos séculos, seja na literatura, cinema, música e teatro.
A peça, na verdade, revela a tentativa dilacerante desta mulher em reconfigurar sua identidade a partir de retalhos reais, poéticos e imaginados, que vão sendo aos poucos costurados por ela em busca de sentido e da percepção de si e de seu entorno. Uma mulher que se (re)constrói. (divulgação)
O palco elevado figura como
uma ponte onde se encontra essa Medeia do século XXI, tentando fazer um
reconhecimento de si, primeiro, como mulher, depois, como mãe, então, como
amante, por fim, como filicida. O tema da vingança por traição está presente,
sim, e eu continuo cobrando que esse traço da personagem mitológica seja
recriado, porque não identifico as mulheres hoje se agarrando com tamanha ira e
espírito de vingança a uma paixão desfeita. Os inúmeros relatos de violência contra
a mulher retratam que é o homem que não aceita a tal traição ou uma despedida
por amor frustrado.
Mas o tema é Medeia, suas
origens – por assim dizer – clássicas e seu impacto cultural permanente. A dramaturgia
viaja para o passado até Eurípides, texto canônico sobre a princesa da Cólquida
conduzida à Grécia pelo príncipe sem trono Jasão, capitão da nau Argo, até
alusões ao filme Medea (1988) de Lars von Trier, em que os filhos são
enforcados numa árvore – e o cenário da peça remete logo a essa imagem.
A cena se passa ao alvorecer – ao raiar do Sol, ancestral de Medeia que é evocado, além de Hécate. O design de luz trabalha bem com isso, projetando ininterruptamente uma luz laranja sob o palco (veja a faixa na foto do cenário). O figurino de Marichilene Artisevskis recupera a Medeia de Maria Callas no filme de Pier Paolo Pasolini (1969), com menos arroubos (veja a foto de divulgação).
captada da internet |
No que se pode considerar um monólogo, ainda que no final surja uma fala de Jasão em diálogo com Medeia, Carolina Fabri salta do discurso coloquial para a gravidade trágica ao retomar trechos da tragédia grega. O texto joga como os tempos verbais (presente e pretérito) e com a primeira e a terceira pessoas (eu & ela). Um espetáculo solo poupa a plateia da encenação da morte dos filhos, embora essa MdEa tenha sangue nas mãos todo o tempo (veja a foto de divulgação). É tão mais sensível quando ela simplesmente se recorda que os papéis na bolsa (invisível) largada no chão são os desenhos dos meninos!
Sinto pelo spoiler, mas este comentário é um documento de pesquisa, daí que tenho que revelar que essa nova MdEa dá suas mãos a algemas com sirene como efeito sonoro. A trilha musical está todo o tempo ilustrando o texto, o que não me agrada, só que tenho que admitir que foi nesses momentos que a enxuta audiência não conteve a reação favorável.
Bom texto. Boa montagem. Gratuito.
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